Multinacional da higiene cria lenço de papel que diz quando você está gripado

Supervisionar os departamentos de pesquisa das quatro principais unidades de negócio da Kimberly-Clark é uma das atribuições de Pete Dulcamara, cientista-chefe e vice-presidente técnico da multinacional de higiene pessoal que é dona das marcas Neve, Scott, Kleenex, Huggies e Intimus, entre outras.

“Parte importante do meu trabalho é fazer a conexão entre as unidades APAC (Asia-Pacífico), EMEA (Europa, Oriente Médico, África), LAO (América Latina) e KCNA (América do Norte), para ter certeza de que todos entendem a ciência que estamos praticando, e para assegurar que qualquer inovação local seja compartilhada em escala global.”

Por trás de tantas mudanças, está o objetivo de digitalizar cada vez mais os produtos e os canais de venda. “A questão é: como mudamos para nos tornarmos mais competitivos nesse mundo?” Uma das respostas está nos produtos inteligentes que a marca vem patenteando nos últimos anos – a maioria deles ligado à inteligência artificial. “Há vários smart products já patenteados, mas falta solucionar alguns problemas para que possam ser lançados no mercado.”

Diretor do departamento de pesquisa por 12 anos, Dulcamara não hesitou em assumir o posto de cientista-chefe, responsável por toda a inovação da empresa. “Estamos vivendo um momento único. Tecnologias como inteligência artificial, realidade virtual e aumentada, blockchain, sequenciamento genético e robótica avançada vão mudar completamente a realidade como a conhecemos. Para um cientista, é um ótimo momento para estar vivo.”

Confira abaixo os principais trechos da entrevista que o cientista-chefe concedeu a Época NEGÓCIOS.

Como cientista-chefe da Kimberly-Clark, seu papel é introduzir inovação de forma contínua em uma empresa prestes a completar 150 anos. Como faz isso?

O que torna a empresa diferente de outras do segmento é um questionamento simples, que fazemos todos os dias: o que é impossível hoje, mas, se fosse verdade, poderia transformar totalmente o negócio? Vou te dar um exemplo. Nas próximas 24 horas, milhões de pessoas vão usar um produto da Kimberly-Clark. E colocar todos os fluídos biológicos conhecidos pelo homem naquele produto. Então nós nos perguntamos: e se pudéssemos acessar os dados biológicos deixados nesses produtos? O que isso diria sobre a saúde ou os hábitos alimentares dessa pessoa? E como esse conhecimento pode beneficiar os nossos clientes?

Já existem produtos desse tipo em desenvolvimento?

Temos vários smart products patenteados, mas sem previsão de lançamento, por vários motivos. O primeiro item dessa linha foram as fraldas inteligentes, que já estão sendo comercializadas no Japão e na Coreia. Mas ainda não sabemos se vamos prosseguir com a ideia. O produto traz um benefício, porque ajuda a mãe a monitorar o bebê. Mas o valor ainda é muito alto. Quer dizer, se você vai jogar a fralda fora, ela não pode custar uma fortuna. Outra opção seria colocar um sensor móvel na fralda, que pudesse ser transferido para a próxima. Mas ainda não chegamos a uma solução definitiva.

Outra novidade ainda inédita é um lenço de papel que muda de cor quando você assoa o nariz. Se estiver com gripe, vai ficar com uma cor; se for só um resfriado, outro tom; e, caso seja uma alergia, uma terceira tonalidade. Isso é possível porque, em cada uma dessas condições, o pH do fluído é diferente. A questão aqui é: o consumidor realmente quer ter essa informação?

A inovação em si não justifica o lançamento do produto.

Não justifica. O que eu descobri no meu trabalho é que, para lançar um produto inteligente de sucesso, você precisa associar cinco fatores: 1. uma proposta de valor que o consumidor entenda; 2. um modelo de negócio que traga lucro; 3. uma estratégia global de mercado que você possa executar; 4. uma gama de produtos derivados; 5. uma tecnologia com custo viável. Então, em todos os produtos smart que criamos até agora, ainda falta pelo menos um desses cinco fatores. É preciso combinar todos eles para criar um produto comercialmente viável. Recentemente, desenvolvemos um papel higiênico com biomarcas, que pode alertar o usuário caso ele apresente sinais de câncer de cólon. Mas será que o consumidor quer ir no banheiro e receber essa notícia do papel higiênico? Pode ser bem assustador.

Em relação à sustentabilidade, quais são as novidades? O que está sendo feito para eliminar a necessidade de papel e plástico nos produtos da marca?

No caso do papel, estamos estudando novos tipos de fibras, para não termos que recorrer às florestas. Entre as alternativas estão bambu, palha de cana-de-açúcar, milho ou trigo, e diversas formas de biomassa. Também controlamos de perto o manejo das florestas, para evitar desmatamento. No caso do plástico, feito com petróleo, a proposta é substituí-lo por biomassa, e também encontrar maneiras de torná-lo biodegradável ou compostável. Há ainda um esforço geral para minimizarmos a nossa pegada de carbono.

A Kimberly-Clark tem um programa chamado Mulheres na Ciência. Como funciona?

Em pesquisas com os consumidores, descobrimos que 80% dos nossos produtos são comprados por mulheres. Então é fundamental termos nos nossos times pessoas que entendam como elas se comportam. Precisamos de mulheres no departamento de pesquisa, na gerência e em cargos de liderança. Parte do meu trabalho é ir atrás desses talentos. Temos parcerias com universidades em que privilegiamos mulheres formadas em engenharia. Queremos atrair e reter essas profissionais do sexo feminino, para que atinjam cargos de liderança na empresa, e eliminem qualquer preconceito inconsciente que possa existir na companhia.

Notícias Relacionadas

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.