Endividado, o brasileiro consome menos fora de casa e investe em conforto no lar
Levantamento Full View, da NielsenIQ, mostrou que 36% dos lares endividados reduziram os gastos com alimentação fora de casa nos últimos seis meses, enquanto 34% diminuíram as despesas com lazer fora do lar. A região Nordeste concentra um quarto dessa retração nos gastos com alimentação fora de casa, e os lares com renda entre R$ 3.500 e R$ 7.800 são os que mais reduziram as saídas.
Enquanto cortam despesas fora de casa, os consumidores ampliam investimentos em praticidade e entretenimento doméstico. Entre 2024 e 2025, as vendas de panelas de arroz cresceram 15% em volume, enquanto micro-ondas e lava-louças avançaram 12% e 65%, respectivamente. No segmento de entretenimento, os consoles de videogame registraram alta de 39%, os monitores cresceram 25% e as caixas de som, 37% no mesmo período.
Segundo o líder de Insights para a Indústria da NielsenIQ, Gabriel Fagundes, o movimento reflete mudanças na forma como os consumidores administram o orçamento diante do cenário econômico. “O endividamento é hoje o principal desafio para o brasileiro na hora de decidir os gastos, mas isso não significa que ele não ache meios para lidar com isso. Vivemos diversas crises ao longo da história e aprendemos muito com elas. Por isso, nossa forma de lidar com adversidades é diversa e combina diferentes estratégias. O consumidor está cada vez mais apto a fazer escolhas que façam sentido para o seu orçamento. Isso faz com que o varejo passe a disputar espaço no carrinho com todo tipo de consumo, como streaming e lazer”, afirma.
O estudo também aponta avanço do consumo online. Em 2025, 3,1 milhões de lares realizaram compras pela internet, tornando o canal o quarto maior em ganho de penetração no período. As vendas de FMCG no online cresceram 34% em 2025. Entre os consumidores de bens de consumo rápido, 88% já realizam compras online, enquanto 64% afirmam ter substituído parte das compras em lojas físicas por aquisições pela internet.
O contexto geral contribuiu para uma queda no volume de vendas no varejo. De acordo com o estudo, o movimento de retração ganhou força nos últimos anos. Em 2024, 20% das categorias retraíram em volume versus 2023; em 2025, esse percentual subiu para 50%; e, entre o primeiro quarter de 2026 e 2025, chegou a 70%.
Outro fator impactante é a nova ascensão de preços, especialmente em alimentos. O material mostra que 2025 consolidou um novo patamar de preços, após os choques inflacionários dos últimos anos. Entre 2019 e 2025, categorias como café em pó e grãos acumularam alta de 248%, óleo e azeite de 118% e arroz de 78%. Nesse contexto, 36% dos consumidores brasileiros declararam que o aumento do preço dos alimentos estava entre suas principais preocupações no segundo semestre de 2025.
Diante desse cenário, o consumidor intensificou suas estratégias de economia. Segundo o estudo, 66% passaram a buscar opções de menor preço, 45% escolhem o produto mais barato independentemente da marca e 40% monitoram o custo total da cesta. Além disso, 80% afirmam planejar suas compras previamente. O impacto desse comportamento aparece também na perda de penetração e frequência: 48% das categorias perderam penetração nos lares e 60% sofreram queda na taxa de compra.