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MATÉRIA DE CAPA / PANORAMA DO CONSUMO

Bolso mais disputado

Após um ano retraído como foi 2025, especialistas apostam na Copa do Mundo de Futebol e nas eleições para alavancar o consumo

Por Claudia Rivoiro

O ano de 2025 não se consolidou como muita gente esperava devido às mudanças no mercado de consumo no Brasil, tendência que vem sendo observada desde 2024. Segundo estudo da NielsenIQ que publicamos nas próximas páginas, o ano passado fechou com retração de consumo, especialmente no que se refere a alimentos e bebidas.

Segundo o diretor de atendimento ao varejo da NielsenIQ no Brasil, Domênico Tremaroli Filho, a desaceleração do consumo ocorre de forma assimétrica. “Canais mais dependentes de público de menor renda sentem mais do que outros canais. Um dos fatores de desaceleração do consumo é a redução de itens no carrinho, sendo mais acentuado no último trimestre do ano passado”, observou. Ele ainda destacou que três fatores impactaram essa queda: endividamento das famílias, inadimplência e a taxa de juros elevada. “O consumo também deve reduzir em 2026 e vemos as famílias comprando menos, com redução nas quantidades, mas focadas nas marcas”, afirmou.

Atualmente, a disputa pelo bolso do consumidor só aumenta com fatores que há alguns anos não existiam, como canais de streaming, Uber, cross-border (compras pela Shein e Shopee), academias de ginástica e os medicamentos emagrecedores; e o maior de todos: os jogos de azar. Segundo o estudo, 26% dos lares declaram que participam regularmente de jogos e apostas, sendo duas vezes mais do que há um ano; e 49% das apostas são motivadas pela ideia do aumento de renda, com a preferência de quase a metade dos apostadores pelo Tigrinho. “Dentre os apostadores que substituem os gastos, a maior parte está em alimentação e contas do lar. As categorias mais afetadas são alimentação, com 47%; contas, com 45%; lazer, 21%; e medicamentos, com 7%”, informa Tremaroli.

Importante ressaltar que a inflação bateu a casa de 4,5% no ano passado e 80% das famílias brasileiras estão endividadas, mas existe também um cenário de contrastes, como ocorreu em 2024: menor taxa de desemprego desde que se iniciou a medição, mas o endividamento também é alto. O que podemos esperar para 2026? “A esperança está no segundo semestre, que geralmente é melhor do que o primeiro, em especial devido à Copa do Mundo de Futebol e às eleições, mas ainda não podemos cravar que isso ocorrerá”, ressaltou.

Jogos de futebol

A expectativa pela Copa do Mundo de Futebol é fato, pois deve alterar o consumo no país. A proximidade do principal torneio internacional de futebol de 2026 deve impulsionar o consumo dentro de casa no Brasil, especialmente em categorias como bebidas e snacks, segundo o levantamento do market4u. O estudo indica que, na última edição do evento, houve alta de mais de 11% nas vendas, com crescimento de 5% nas transações e 6% no tíquete médio, somando quase R$ 10 milhões. Para 2026, a projeção é ainda mais robusta: faturamento de R$ 42 milhões, com avanço de 32% nas vendas em relação a períodos sem grandes competições.

Impulso adicional

O consultor e fundador da BTR Varese, Alberto Serrentino, fez suas considerações sobre o consumo no Brasil a pedido da DISTRIBUIÇÃO. Para ele, o ano de 2025 teve um comportamento muito parecido com o vivenciado no período de 2017 a 2023, com crescimento baixo para o varejo nacional. Começou ruim e piorou no fim do ano, e o varejo alimentar também não foi nada bem devido à alta taxa de juros. “O ano de 2024 foi uma exceção, e 2025 voltou a ser um ano de baixo crescimento. Estamos em momentos distintos entre a taxa de desemprego, que caiu, e os altos juros, que asfixiam as empresas; as bets, com alto volume apostado; e as canetas emagrecedoras, que mudaram os hábitos alimentares. Hoje, as pessoas comem menos, com impacto em algumas categorias e na renda devido ao seu custo”, destaca.

Consultor e fundador da BTR Varese, Alberto Serrentino
Consultor e fundador da BTR Varese, Alberto Serrentino

Indagado sobre a guerra que acontece entre Estados Unidos e Irã, Serrentino alerta que não dá para se prever nada devido ao seu cenário incerto, mas sem dúvida o Brasil está sofrendo muito menos se compararmos com países europeus e os Estados Unidos. “Vai depender muito da duração da guerra”, observou. Ele lembrou ainda que anos de Copa do Mundo de futebol e eleições alteram, sim, o consumo, em especial de bebidas, mas também impactam negativamente, por exemplo, o food service devido à rotina das pessoas. “Mas no geral contaminam positivamente, pois são anos nos quais o varejo tem impulso adicional”, enfatizou.