Após encerrar os três últimos anos com crescimento além do esperado, especialistas preveem a desaceleração do ritmo de evolução da atividade econômica, para algo em torno de 2% em 2025. Embora o mercado de trabalho e o rendimento mensal apontem melhora significativa, os juros permanecem como sinal de alerta. Com a Selic (taxa básica usada como recurso de política monetária de controle da inflação) em 15% ao ano, maior patamar desde julho de 2006, consumo, crédito e ambiente de negócios permanecem pressionados. Economistas e empresários avaliam o atual cenário, que eleva o risco de endividamento e exige cautela no ambiente de negócios.
O economista Ricardo Amorim, em entrevista à DISTRIBUIÇÃO, recomenda às empresas, especialmente do atacado distribuidor, que fujam de armadilhas. “Em todo negócio de margem estreita, é preciso tomar alguns cuidados: não se deve carregar estoque significativo para evitar o comprometimento da margem; nem dívidas significativas com juros elevados. E, por fim, é preciso sempre buscar a eficiência para melhorar esse processo de distribuição, para recompor ou elevar a margem.”

Amorim considera, porém, que o consumo de alimentos e de produtos de higiene e limpeza vai continuar a aumentar de forma significativa, em razão da expansão do emprego e da renda. “Nos últimos quatro anos, aumentou em 23 milhões o número de empregos gerados de forma consistente. O último dado de julho, o mais baixo da série histórica, de 14 anos, aponta mais gente recebendo salário, o que representa mais consumo desses produtos, principalmente porque o desemprego está muito baixo.”
Na sua avaliação, comparando com 2021, a massa salarial mensal, ajustada pela inflação, passou de 273 bilhões de reais para 352,3 bilhões de reais em setembro. É o maior valor da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), iniciada em 2012. “Com isso, são 80 bilhões de reais a mais entrando mensalmente no bolso dos trabalhadores. O consumo deve aumentar e, no ano que vem, essa situação deve se sustentar.”
Para ele, os números da economia serão melhores do que o esperado pelo mercado, tomando como base as projeções apresentadas no Boletim Focus, do Banco Central, que apontam estimativas de cerca de cem instituições financeiras e empresas. Segundo informou, a principal razão será a forte queda do dólar, que encerrará em torno de 5 reais neste ano e em 4,80 reais em 2026. Com a perda de valor da moeda americana, e a alta taxa de juros, o Brasil atrai o capital estrangeiro.
Para Amorim, a queda do dólar reduz os preços dos produtos importados e o impacto sobre a inflação será de 4,6% neste ano e de 3% em 2026. E por conta da queda da inflação, projeta recuo da Selic a partir do início de 2026, ano em que fecha com 11%. Para o PIB, aposta em crescimento entre 2,4% e 2,5% neste ano e na faixa de 3% para o próximo.
APERTO MONETÁRIO
Haroldo da Silva, vice-presidente do Conselho Regional de Economia – 2ª Região – São Paulo (Corecon-SP), por sua vez, destaca o impacto da taxa Selic em 15%, que provoca restrição monetária “apertadíssima” e retira recursos do setor produtivo e do consumo. “Com uma taxa de juro real de 10% (descontando a inflação em torno de 5%), inibe desde o investimento na ampliação da grande indústria, até o comerciante que pretendia abrir uma loja de café e o prestador de serviços que pretendia trocar de carro.”
O economista observa que o juro alto torna mais atraente a compra de título público (possível para uma menor parcela da população) e encarece os empréstimos e o custo financeiro do crédito, do capital de giro, da economia e dos produtos. “Existe uma drenagem de toda atividade produtiva para o setor financeiro e isso é extremamente concentrador de renda. Isso porque os detentores de títulos públicos formam um pequeno grupo de brasileiros. E aqueles que dependem de crédito e pagam mais pelos produtos são a maioria dos brasileiros.”
Silva explica que juros e câmbio são dois indica – dores importantes para a precificação da economia. Na sua previsão, a Selic até deve recuar um pouco a partir do fechamento de 2025, para 14,75% e para 12,5% no fechamento de 2026. Já a cotação da mo – eda americana deve ficar entre 5,40 reais (em 2025) e 5,50 reais (em 2026), e a in – flação em 4,7% (neste ano). Para aliviar a pressão, es – pecialmente sobre o consu – mo, o economista defende a reforma tributária, isen – tando do Imposto de Renda quem ganha até 5 mil reais e com a aplicação de uma alíquota menor para quem recebe até 7,5 mil reais. A probabilidade de ampliar o consumo nestas faixas de renda é maior quando se compara, por exemplo, com quem ganha de a par – tir de 10 mil reais. A grande questão, porém, está em como compensar a redu – ção da carga tributária na receita da União. “Entendo que o tema não deve ser tratado como projeto elei – toreiro, mas sim como uma questão de se fazer justiça social”. É muito importante, completa, garantir também futuras correções da tabela de imposto de renda, para que não seja um problema recorrente.
O economista defende ainda a retomada dos estoques reguladores, por parte do governo, para manter a oferta de alimentos essenciais, como arroz, feijão e batata, para evitar impacto sobre os preços. Ele aposta que o PIB cresça 2% neste ano, puxado por serviços, agro e indústria extrativista – minério de ferro e petróleo. Impactada pelos juros, a indústria de transformação deve apresentar baixo crescimento, de cerca de 1%. Para 2026, a economia deve manter alta de 2%, puxada pelo período eleitoral.
PONTOS POSITIVOS
O presidente da ABAD e da Unecs, Leonardo Miguel Severini, entende que o atual contexto é desafiador, especialmente em razão de juros altos, endividamento “excessivo” das famílias e das empresas e possíveis impactos do tarifaço. “São fatores que refletem na economia e podem inibir novos investimentos.”
Mas, por outro lado, enxerga, como sinal positivo, a “convergência” de entendimentos por parte do Legislativo no sentido de votar pautas reivindicadas por diversas entidades, principalmente para os setores de comércio e serviços, no que tange à liberdade econômica, segurança jurídica e segurança pública.
O empresário destacou ainda, como avanço, projetos defendidos pela ABAD, elencados como prioritários. Entre os quais está a proposta aprovada pela Comissão de Assunto Sociais do Senado, no último dia 17 de setembro, que autoriza a comercialização de medicamentos e a instalação de farmácia dentro da área de vendas do varejo alimentar. Para se tornar lei, depende da aprovação da Câmara dos Deputados e do governo federal. (ver matéria nesta edição)
“A proposta é positiva por ampliar a oferta de produtos no varejo, melhorar a condição de preços oferecida ao consumidor e facilitar o acesso dos produtos com o aumento de estabelecimentos aptos a venderem remédios.”
Severini observa o empenho da ABAD, em conjunto com outras entidades, para o desenvolvimento e fortalecimento do pequeno e médio varejo. E paralelo a isso, a Associação investe na qualificação profissional no canal indireto. Recentemente, apresentou a UniAbad, universidade corporativa que oferece o primeiro curso de formação superior de tecnólogos, online, em gestão de vendas, logística e distribuição voltado ao setor atacadista distribuidor. “Está em pleno vigor e apresenta muita adesão. Com essa iniciativa percebemos que o brasileiro quer se capacitar e trabalhar.”
APOSTA FORTE
Roger Saltiel, coordenador do Comitê Canal Indireto, da ABAD, que reúne indústrias e o atacado distribuidor, observa que as empresas acompanham com atenção o cenário macroeconômico. “As empresas mostram preocupação com inflação, aumento de juros, redução da confiança do consumidor e com os bets (sites de apostas), que retiram a renda do consumidor e, inclusive, retêm recursos que seriam usados para a compra de produtos de categoria mercearil.”
Segundo informou, esses indicadores apontam a pressão exercida no canal indireto e, como saída, o desenvolvimento de um trabalho forte de go-to-market (conjunto de ações que visam a entrega de valor aos clientes), realizado por fornecedores e empresas do setor, para sustentar os negócios e o crescimento. O Ranking ABAD/NielsenIQ de 2025 aponta o canal indireto como responsável por 53,7% (443 bilhões de reais) do mercado de consumo de alto giro.
O especialista aposta na força do canal indireto para manter a boa performance, mesmo porque existe a preocupação expressa de estender a mão ao pequeno varejo. Entre os pontos apresentados pelo comitê está classificar esse varejo por segmentação, dosando o nível de serviço necessário para atender de forma assertiva cada ponto de vendas. Outro tema, conectado a esse, é a sofisticação da operação de agentes de distribuição ao buscarem atuar de forma mais especializada, seguindo sua vocação, como optando por canais e regiões determinados. O terceiro ponto é investir na capacitação profissional.
TERMÔMETRO DO SETOR
A edição de agosto do Termômetro ABAD, elaborado em parceria com a NielsenIQ, revela que o faturamento do setor atacadista e distribuidor, em termos nominais, acumula crescimento de +4,7% no ano, em comparação ao mesmo período do ano passado.
No entanto, o resultado de agosto não foi tão expressivo quanto nos meses anteriores: em relação a agosto de 2024, houve aumento de apenas +1,4% no faturamento, segundo menor índice do ano. Na comparação com julho de 2025, o setor apresentou retração de -8,2%, queda mais acentuada do que a registrada em 2024 (-2,9%). O relatório mostra que as grandes empresas, com faturamento acima de R$ 100 milhões, foram as principais responsáveis pelo desempenho positivo no acumulado. As pequenas (R$ 1,5 milhão a R$ 25 milhões) também cresceram, mas as intermediárias (de R$ 25 milhões a R$ 100 milhões) recuaram no período.
Outro ponto de atenção é a confiança do consumidor, que caiu em agosto, impactando famílias de todas as faixas de renda e resultando em menor intenção de consumo. Com isso, o varejo fechou o mês em retração de vendas unitárias, embora o faturamento tenha se mantido em alta, puxado pelos preços. A ABAD reforça o convite para as empresas do setor a integrarem a pesquisa mensal do Termômetro ABAD NielsenIQ – ferramenta estratégica para geração de inteligência de mercado e fortalecimento do canal indireto.
PRONTA PARA VOAR
Com um faturamento de 541,661 milhões de reais, registrado em 2024, e a perspectiva de manter o crescimento de mais de 30% já observado neste ano, a Millenium Comercial, sediada no Espírito Santo, se preparou para ganhar espaço no mercado.
A estratégia consistiu em criar uma base de sustentação que visa ao incremento do portfólio, atualmente de oito mil skus comercializados no canal farma (90% de genérico/similares e 10% de itens de higiene e beleza) para 12 mil até meados de 2026. A empresa investe na ampliação do mix para o consumo, como produtos de higiene e beleza, de controle da saúde (como teste de glicemia, nebulizador e termômetro).
Com isso, passa a oferecer também alimentos saudáveis (como barra de cereais, suplemento e leite em pó). “Já estamos acertados com alguns novos fornecedores. Esperamos chegar ao portfólio ideal de não medicamentos, passando de mil para 5 mil itens, no início do próximo ano”, conta Lucas Freire (na foto), CEO da Millenium.
Atualmente, a distribuidora atende cerca de 7.500 farmácias entre Espírito Santo e Rio de Janeiro – estado que representa 75% da receita. Para o incremento da operação, a previsão é alcançar, como segundo passo, o canal alimentar a partir de 2026. Segundo Freire, foi feita uma reestruturação para poder ter a musculatura necessária para dar os saltos programados.
“Fizemos o dever de casa para colher os frutos a partir de 2025. Durante três anos, realizamos ajustes e investimos, inclusive em tecnologia. Implementamos o SAP e desenvolvemos projetos relacionados à inteligência artificial em todas as áreas, principalmente para aumento de produtividade, operação e inteligência de mercado”.
A empresa tem dois centros de distribuição: de 10 mil metros quadrados no Rio e de 7.500 metros em Serra, no ES. Para este último, a previsão é ampliar para 10 mil metros quadrados, com obras que começam ainda neste ano.
EXEMPLO DE RESILIÊNCIA
A UnidaSul mostra que a expertise no ramo de atacado distribuidor permite driblar crises econômicas e até situações adversas, como o desastre natural que assolou o Rio Grande do Sul, com as fortes enchentes ocorridas em 2024. Embora tenha amargado uma perda de 9,8% no faturamento, recuando para 613,325 milhões de reais no ano em questão, conquistou o prêmio de maior atacadista distribuidor do estado do Ranking ABAD/NielsenIQ, outorgado em 2025.
O núcleo de negócios de atacado distribuidor é parte integrante do ecossistema UnidaSul Distribuidora de Alimentos, em fase de expansão. Inclui 37 lojas Rissul e 14 Macromix Atacado, ambos em expansão. Os três modelos de canais de vendas são voltados ao abastecimento do mercado gaúcho. O grupo anunciou neste ano investimento de R$ 410 milhões até 2027, sendo 350 milhões de reais destinados à abertura de novas lojas e 60 milhões de reais à modernização das unidades das duas bandeiras. Edson Cesaro (na foto), diretor de atacado, explica que serão inauguradas neste ano uma loja de varejo e outra Macromix. Para 2026, a previsão é de abertura de quatro unidades.

No ramo de atacado distribuidor, a empresa possui quatro bandeiras, cada qual com sua equipe de vendas. Tem a Dec Sul, especializado em cosméticos, com um portfólio de mil itens; CBS, marca própria de produtos alimentícios com 300 itens; Supricerto, de distribuição exclusiva de duas indústrias; e Disbem, de atacado generalista, com mix variado, flexível e que gira em torno de mil a 1,2 mil itens. “Atendemos oito mil pontos de venda, com equipes segmentadas de vendas. Noventa e nove por cento dos clientes são pequenos estabelecimentos do canal alimentar, com até quatro checkouts.”
Apesar do recuo do faturamento do ano passado, Edson Cesaro explica que o atacado distribuidor fechou no azul. Para o atacado distribuidor, a projeção é de crescimento comedido, de 10%, depositando as fichas nas vendas do segundo semestre. Por enquanto, confessa, o patamar está ainda no campo do desejo, uma vez que há estagnação no volume de vendas.
APOSTA NO NEGÓCIO
Conhecida como distribuidora atacadista de produtos frigorificados em Santa Catarina e Paraná, a Segala’s está diversificando o portfólio. Ainda de forma embrionária, investe em alimentos da linha seca, como biscoitos, massas, compotas e conservas. Com a novidade, o mix passou de 2 mil para 2.400 itens e deve subir para 2.800 ou 3 mil até dezembro de 2026, calcula Alexandro Segalla (na foto), CEO da empresa catarinense. Por ora, a novidade está apenas ao alcance do mercado de Santa Catarina.
A estratégia adotada é apresentar os produtos de forma fracionada, aos poucos, em lotes dosados, para que se crie o hábito de trabalhar com a nova linha, iniciada em junho. “Como temos outros negócios que nos dão suporte, não precisamos apresentar (de uma só vez) 100% da linha. Em vez de lançar mil produtos, apresentamos 200, depois outros cem ou 150, para nos adaptarmos, e até chegar ao número desejado.” Sediada em Gaspar, município catarinense, a empresa tem como eixo do negócio os alimentos frigorificados.
Cobre o estado catarinense e parte do Paraná. “Nosso negócio é bastante pulverizado e voltado para os pequenos estabelecimentos. Atendemos food service, lojas de conveniência, mercearias e, para nós, o grande cliente tem quatro checkouts.” No atual contexto, o empresário destaca que os pedidos estão cada vez mais espremidos. “Com o brasileiro consumindo menos e preferindo produtos mais baratos, sentimos a realidade nos pedidos dos clientes. Quem comprava dez caixas de costela para fazer promoção no fim de semana, agora pede seis.”
Apesar do quadro desafiador, a empresa, que vende bovinos, suínos, aves, pescados e batatas importados, investiu 160 milhões de reais, com recursos próprios, na ampliação do centro de distribuição. A obra foi iniciada em 2024, conta com área administrativa. Vai chegar a 25 mil metros quadrados, hoje tem de 18 a 19 mil metros quadrados. Com isso, terá espaço de folga para ampliar o mix. A parte de depósito já está concluída. A previsão é de crescer em 18% o faturamento neste ano.
NA MIRA, O FUTURO
O Grupo Braveo ingressou no canal indireto em 2021 a partir da aquisição de sete empresas conhecidas e experientes no ramo. Nesse rol, Oniz Distribuidora, Rio Piranhas, Dismelo, Arilu, Grupo Ibiapina, Pulmer Distribuidora e Tiscoski Distribuidora. Presente em dez estados e com 17 centros de distribuição, a empresa formou um ecossistema de peso. Ocupa a oitava posição no ranking nacional ABAD/NielsenIQ de 2025, com um faturamento de 4,207 bilhões de reais registrado no ano-base de 2024.
Ricardo Botelho (na foto), CEO do grupo sediado em São Paulo, garante que a empresa está aberta a novas oportunidades, sinalizando que novas aquisições podem ser feitas mais para frente. “Nosso objetivo, sem dúvida, é de crescer. Mas neste ano estamos envolvidos num trabalho de distribuição com perfeição.” Embora entenda que este seja um momento desafiador da economia, Botelho explica que a empresa mira o mercado no longo prazo, seguindo com confiança e plano de crescimento.
Trabalhamos com a visão estratégica por cinco anos e vamos atualizando a cada 12 meses”. Embora faça segredo em relação ao montante orçado de investimentos e de evolução do faturamento, explica que está mantido o plano de incrementar o negócio. “Organicamente, esperamos crescer acima do setor”. O melhor resultado, segundo informou, reflete sobretudo nos investimentos realizados em tecnologia e na qualidade do nível de serviços.
O recurso da inteligência artificial está presente na estratégia e nas ferramentas de gestão comercial. Entre as ações destacadas está o Pedido Sugerido, que tem na memória o histórico dos clientes, o qual, por sua vez, pode solicitar a reposição a qualquer momento. Para dinamizar a operação, respeitando as particularidades de cada região atendida, Botelho considera essencial ter profissionais competentes, investir na valorização da equipe e dos gestores. Vale destacar que o grupo possui o comitê de sócios, que atuam em diferentes níveis de envolvimento direto.






